Pedra pomes

Não me lembro bem como começou. Eu estava apenas de passagem por aquela rua. Devia ter entre nove ou dez anos e, quando percebi, estava no meio de uma chuva de pedras.

Do outro lado do quarteirão, meia duzia de moleques descalços. Em cima de um monte de pedra brita, na calçada de uma casa em construção, eles enchiam a mão e jogavam as pedras em minha direção.

Algumas pedras caiam à 4 ou 5 metros antes de chegar a mim. Essas quicavam com menos força, e eu conseguia desviar com facilidade. Outras vinham muito altas, e só as via quando caiam ao meu lado.

Algumas acabavam me acertando. Riscando minha pele. Por isso eu tentava me afastar em zigue e zague.

Aos poucos, outros garotos da rua foram surgindo. Alguns ao meu lado. E estes começaram a devolver as pedras. Era de fato uma guerra para alguns deles. Tentavam mirar e calcular qual ângulo seria mais eficiente. Vibravam quando tiravam fino de alguém. Riam quando as pedras caiam no telhado de uma casa.

De fato era apenas uma brincadeira. Ninguém, seja de qual lado fosse, queriam machucar o oponente.

Foi então que se ouviu um grito de dor.

O garoto mais alto do lado de lá levantou as mãos e fez um sinal “parou, parou, parou!”. E as pedram pararam de vir. E depois, de ir.

Os de lá se reuniram em volta do garoto que estava abaixado com a mão no rosto. Dava pra ouvir as ultimas pedras jogadas ainda quicando no chão. Todos em silêncio.

Os de cá, começaram a se afastar. Foram para as suas casas. E eu, que não morava naquela rua, fui embora.

Ao virar a esquina, lembro que escutei uma mãe. “O olho, o olho!” Foi o que ouvi.

A pedra que amacia a pele e a mesma que fere a carne.

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